O valor gerado pelas entregas incrementais em um produto Scrum

Este texto busca versar sobre Scrum, mais especificamente acerca de dois gráficos encontrados no capítulo VIII da obra de Jeff Sutherland, Scrum: A arte de fazer o dobro do trabalho na metade do tempo (SUTHERLAND, 2014). Relacionadas estão as temáticas de MVP (Minimum Viable Product – Produto Viável Mínimo) e o Princípio de Pareto (regra 80/20).

O conceito de MVP se baseia em testar uma ideia de produto (ou serviço) com o menor custo de produção possível. Isso é realizado através da montagem de um produto simples, porém apresentável e funcional, uma versão do produto que tenha o menor número de atributos (funcionalidades) possíveis dentre aqueles que poderá ter um dia. Com esta versão simplificada do produto é possível obter-se um retorno (feedback) do público, a fim de identificar se é factível levar a ideia a frente, dar uma guinada (uma pivotagem na linguagem da startup enxuta), ou simplesmente abortar o projeto enquanto é cedo e barato para fazê-lo.

Normalmente o MVP está relacionado à ideia de “fail fast” (falhar rápido), que trata de cometer erros o mais cedo possível no projeto, a fim de poder corrigi-los enquanto ainda é barato e mais simples de fazê-lo. Por outro lado, no Scrum o autor prefere pensar na forma de fazer certo da primeira vez, invés de pensar em errar, contudo o objetivo buscado é o mesmo, evitar os altos custos (financeiro, tempo, estresse, etc) gerados pela correção tardia dos problemas. Assim, pode-se dizer que o MVP é um gerador de inteligência para a equipe, onde um retorno real do público é recebido pela equipe, a qual poderá utilizar esta inteligência para ajustar seus esforços visando a criação de um produto que as pessoas desejem usar, algo realmente útil.

O Princípio de Pareto vem da observação empírica de Vilfredo Pareto (França, 1848-1923), que defende uma proporção de 80/20 na relação entre resultado e esforço, ou seja, 80% do resultado refere-se a 20% do esforço realizado. Dessa forma, 80% do esforço seriam relativamente irrelevantes – desperdício. Embora a observação inicial de Pareto tenha vindo da divisão de riquezas em uma população, muitos defendem a aplicabilidade do princípio em diversas áreas, a incluir na temática deste texto. Com base nisso, entende-se que 80% de valor de um produto/serviço está em 20% de seus atributos/funcionalidades. Aqui então entra o Scrum, que por sua vez serve como ferramental para que os 20% de esforço sejam priorizados, e os 80% de valor do produto sejam alcançados o quanto antes.

É possível então concluir que, o MVP pode ser uma ótima ferramenta para a aplicação do Princípio de Pareto, visto que através do retorno obtido pelo MVP e as sucessivas versões incrementais posteriores, a identificação dos 20% que compõem os 80% de valor do produto será facilitada. Daí cabe citar o primeiro gráfico, disposto na Figura 1, que traz a relação entre o percentual de valor de um produto em relação ao percentual de atributos existentes.

Gráfico da curva de valor de um produto Scrum

Figura 1: Gráfico da curva de valor de um produto Scrum
Fonte: SUTHERLAND, 2014, Cap. 8

Como pode-se observar no gráfico, o produto tem um enorme salto de valor no início do projeto, onde pouquíssimas atributos dão grande resultado, e com o passar do tempo o valor em relação à quantidade de atributos tende a diminuir até chegar em certa estabilidade.

É justamente em cima do grande salto inicial de valor que o MVP se encaixa, mesmo com poucas funcionalidades ele conta com um razoável grau de valor, o que o torna passível de teste. Cabe-se ainda notar que, como citado previamente, o próprio MVP é um agente de valorização do produto, pois o retorno obtido com o seu lançamento, ajuda na identificação dos atributos de maior valor, permitindo um maior realinhamento do projeto com sua trajetória de valor.

Destaca-se ainda a demarcação sobre o ponto de lançamento real do produto, que vai em encontro direto com a regra 80/20, onde o produto atinge um alto nível de valor em relação ao seu custo de produção. Até porque, após este ponto o crescimento de valor tende a ser mais difícil, e o produto tendo sido entregue resultará em um retorno valioso gerado por seus consumidores, o qual servirá como ferramental de crescimento do produto.

Embora o MVP seja um ponto de grande valor na trajetória do projeto, não deve-se tê-lo como único lançamento prévio, pelo contrário, o MVP é apenas o pontapé inicial na sequência de lançamentos dentro do processo iterativo que defende o Scrum. E tal como o MVP, cada lançamento gera valor no produto, devido principalmente ao retorno gerado pela sua entrega. Nisso destaca-se o gráfico da Figura 2, onde é apresentado o valor de produto em relação à quantidade de atributos disponíveis no produto e recursos investidos em sua construção.

Gráfico da composição de valor de um produto Scrum

Figura 2: Gráfico da composição de valor de um produto Scrum.
Fonte: SUTHERLAND, 2014, Cap. 8

Este gráfico traz a ideia de se compor o valor do produto através de entregras incrementais, de forma que, a cada entrega obtém-se um salto de valor. De certa forma, ao realizar a comparação deste gráfico com a curva de valor, pode-se dizer que, a cada entrega a curva de valor do produto é “reiniciada”, resultando num maior aproveitamento dos recursos empregados no projeto do que se poderia esperar de uma abordagem não iterativa (em cascata), com sua única entrega realizada no final do projeto.

Concluindo, cabe dizer que o Scrum é uma metodologia criada para projetos de software, porém devido sua natureza, pode ser utilizado em projetos de qualquer tipo. Como diria o autor, desde projetos para a construção de foguetes espaciais até para uma lista de tarefas do lar. Recomenda-se ao interessado a leitura mais aprofundada sobre o tema, a começar pelo livro citado no início deste texto, onde o autor, de entusiasmo contagiante, apresenta não só os conceitos relacionados ao Scrum, mas ainda o embasamento, raizes, resultados práticos alcançados pelo Scrum e as ideologias relacionadas. Vale citar ainda a leitura sobre o tema de startup enxuta, apresentado por Eric Ries (RIES, 2012), que tem tudo a ver com o tema em questão.

Referências:
– SUTHERLAND, J. Scrum: A arte de fazer o dobro de trabalho na metade do tempo. Tradução: Natalie Gerhardt. São Paulo: Leya Brasil, 2014.
– RIES, E. A Startup Enxuta: Como os empreendedores atuais utilizam a inovação contínua para criar empresas extremamente bem-sucedidas. Tradução: Texto Editores. São Paulo: Lua de Papel, 2012.

PS.: Este texto foi também publicado em https://medium.com/@hmagalhaes/o-valor-gerado-pelas-entregas-incrementais-em-um-produto-scrum-48c7ed884bd1#.9iuqvj836

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